No cenário doméstico, a pesquisa Projeções Broadcast feita na segunda-feira (16) mostrou que 76% das instituições financeiras consultadas passaram a projetar um corte de apenas 0,25 ponto percentual na taxa Selic, que hoje está em 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas. Uma semana antes, 62,5% apostavam em um corte de 0,50 ponto. O mercado girou. E os grandes bancos acompanharam a mudança: o JP Morgan e o Itaú BBA revisaram suas projeções para um corte mais tímido de 0,25 ponto.
O Bank of America (BofA) seguiu o mesmo caminho, argumentando que a alta do petróleo aumenta os riscos para a inflação, mas que a política monetária ainda segue restritiva. A XP foi mais longe: prevê que o Copom não vai mexer na Selic desta vez, defendendo uma postura de “esperar para ver”. Já a Suno mantém a leitura de que dois cortes ao longo de 2026 seguem no radar, desde que o conflito se encerre em breve.
“Diferentemente de muitos outros países, o Brasil ainda possui espaço relevante para cortes de juros, dado que a Selic se encontra em um patamar elevado, próximo de 15%, enquanto as expectativas de inflação vinham sendo revisadas para baixo. Ainda assim, a trajetória da política monetária dependerá fortemente da evolução dos preços das commodities, do comportamento do dólar e da reação dos principais bancos centrais globais a esse novo cenário geopolítico”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
O tom do comunicado do Copom deve ser de cautela, mas com a porta aberta para novos cortes. Wanderley Gonçalves, planejador financeiro e especialista em investimentos, acredita que o Banco Central vai reforçar que está monitorando os efeitos da guerra sobre commodities, energia e bens industriais.
Para as próximas reuniões, se a inflação mostrar sinais de aceleração, ele acredita que o Copom pode reduzir o ritmo de cortes ou até pausar o ciclo para evitar que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) volte a patamares elevados.
Fed deve segurar juros e Powell alertar para risco de estagflação
Do outro lado do Atlântico, o Fomc também vai optar pela cautela, ao menos essa é a expectativa dos especialistas. O Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) deve manter os juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano. O BofA aposta que o comunicado vai citar o aumento da incerteza geopolítica e que o presidente do Fed, Jerome Powell, vai tocar no risco de estagflação, combinação de inflação alta com crescimento mais fraco. As projeções de inflação do Fed devem ser revisadas para cima, enquanto o chamado dot plot, gráfico que mostra para onde os dirigentes acham que os juros vão, deve seguir estável para os próximos anos.
“A manutenção dos juros na faixa atual já é dada como certa pelo mercado, então o foco principal será a comunicação do Fed diante desse cenário global substancialmente mais complexo. Qualquer sinalização de que os juros ficarão altos por mais tempo terá um impacto direto no câmbio”, afirma Marcos Valadão, especialista em mercado financeiro e investimentos da Armada Asset.
Para ele, diante do choque estagflacionário provocado pela guerra, a instituição tende a priorizar o controle da inflação em detrimento da atividade. “Isso naturalmente adia o ciclo de afrouxamento monetário, tanto que as apostas de corte para as próximas reuniões despencaram e o cenário base hoje prevê apenas uma pequena redução no final de 2026. Na prática, o conflito tornou o ambiente muito mais volátil, e qualquer projeção econômica passou a ter uma validade curtíssima”, completa.
Já Igor Nascimento, administrador e especialista em investimentos, avalia que o mercado lida com forças em sentidos opostos: o conflito pressiona o petróleo e gera risco inflacionário direto via combustíveis e logística, enquanto os dados mais fracos da economia americana apontariam, em condições normais, para juros menores. “O risco geopolítico tem pesado mais na balança, mantendo os investidores em postura defensiva até que haja maior clareza sobre a extensão dos conflitos”, diz.
O que fazer com os investimentos enquanto a poeira não baixa
Para quem investe, Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, recomenda posições mais conservadoras e com liquidez. Com a Selic elevada por mais tempo, os pós-fixados, títulos que rendem de acordo com a taxa de juros do momento, saem na frente. Pré-fixados curtos e títulos indexados à inflação também abrem janelas de oportunidade pelo estresse nas curvas de juros.
Já os multimercados, fundos que combinam diferentes estratégias de investimento, seguem como os grandes perdedores desse ambiente: uma Selic alta por mais tempo não favorece o segmento. Na Bolsa, após os ajustes recentes, Perri vê oportunidades em empresas defensivas, geradoras de caixa, de setores pouco cíclicos e exportadoras.
Enquanto isso, na hora de decidir onde alocar, Bruna Centeno, economista e sócia da Blue3 Investimentos, lembra que o maior erro é se aventurar fora do próprio perfil de investidor, especialmente em momentos de volatilidade, quando surgem muitas promessas de ganho fácil. Ela recomenda evitar papéis cíclicos, como o varejo, e empresas com estrutura de capital fragilizada. “O básico bem feito, respeitando o seu perfil, o seu prazo de alocação e a sua estrutura de planejamento, é praticamente a receita do que dá certo”, resume.