Não é para menos: o fechamento do Estreito de Ormuz, via marítima entre o Irã e Omã, por onde passa um quinto do petróleo do mundo, provocou um forte choque na oferta. A cotação disparou.
Até o fechamento desta quarta-feira (25), o barril do Brent acumula uma alta de 34,25% em março, a US$ 97,83, enquanto o WTI sobe 36,29%, a US$ 91,34.
Ao longo do mês, o Brent chegou a bater bem perto dos US$ 120 durante os pregões mais críticos. Antes do conflito, oscilava perto de US$ 65 o barril.
Para se ter uma ideia, trata-se de um dos movimentos mais intensos já registrados para a commodity. A maior alta mensal ocorreu em setembro de 1990, quando a Guerra do Golfo fez os preços saltarem 46,2%. Março de 2026 não fica muito atrás e rompe uma tendência de baixa vigente desde junho de 2022, quando, após a eclosão da guerra entre Rússia e Ucrânia, o mercado passou a avaliar que o conflito não geraria uma disrupção tão significativa na oferta quanto se imaginava.
Daniel Cobucci, analista do BB Investimentos, destaca que, desta vez, a força da alta do petróleo foi tão grande que superou de uma só vez diversas resistências até a máxima anterior, na casa dos US$ 120. “Cabe lembrar que, em termos reais (descontada a inflação em dólares), a commodity atingiu valores superiores a esse patamar em apenas três ocasiões: começo dos anos 1980 (após revolução iraniana), pré-crise financeira de 2008, e entre 2011 e 2014, auge da produção shale norte-americana”, diz o analista.
A grande dúvida: até onde vai a guerra e o preço
A disparada do petróleo veio acompanhada de uma oscilação forte. A cada novo acontecimento, a cotação reage – para cima ou para baixo, a depender do fato novo.
Os pregões desta semana ilustram bem a dinâmica. Na segunda (23), uma postagem do presidente americano Donald Trump indicando uma pausa por cinco dias nos ataques às estruturas de energia do Irã fez o preço do petróleo derreter. O Brent caiu 9,86% naquele pregão, enquanto o WTI caiu 10,36%. Na terça (24), o Irã negou estar em qualquer diálogo com os EUA, fazendo a cotação da commodity subir quase 5%.
Em relatório desta quarta-feira (25), o Goldman Sachs destaca que há fatores pressionando o petróleo para ambos os lados. Entre o que poderiam derrubar os preços, o banco aponta que a probabilidade de a guerra terminar até meados de maio subiu para 60% nos mercados de previsão. A retórica política dá força a essas apostas: declarações de Trump afirmando que a “guerra foi vencida” e que “o fim está próximo” reduzem o prêmio de risco geopolítico embutido no preço do barril.
Mas, na outra ponta, a continuidade dos ataques entre Irã e Israel, além dos planos dos EUA de enviar três mil tropas ao Oriente Médio, mantêm a incerteza elevada. Os fluxos de petróleo por Ormuz também permanecem muito baixos, com queda de 95% em relação ao normal, destaca o Goldman.
A dúvida que fica é quanto à duração do conflito. E se, quando ele acabar, a commodity vai corrigir os excessos registrados neste mês e retornar aos fundamentos que operava antes dos bombardeios. Se isso acontecer, os preços devem voltar a se acomodar bem abaixo dos patamares atuais.
É o que pensa a Vista Capital. A gestora tem histórico quando o assunto é petróleo e fez muito dinheiro com posições compradas há alguns anos, mesmo em ciclos em que teve que se posicionar na contramão do mercado. Desde o ano passado, a commodity voltou à carteira em posições vendidas – contamos isso com detalhes aqui.
A gestora dizia que estava convencida de que os preços do petróleo em meados de 2025, perto dos US$ 70 o barril, não eram sustentáveis no médio prazo. Os preços pareciam elevados. Na visão da Vista, o mercado tinha estoques elevados, a OPEP+ havia abandonado seu papel de estabilizador de preços e a demanda pela commodity estaria estruturalmente pressionada pela transição para fontes de energia renovável e mudanças no consumo global.
A guerra no Oriente Médio não foi capaz de alterar esses fundamentos; ao menos, para o médio e longo prazo. Na carta mensal de fevereiro, publicada este mês, a gestora diz que a dinâmica de alta do petróleo causada pelo conflito deve ser lida, sobretudo, como um choque agudo de logística, escoamento e distribuição; e não como uma alteração estrutural e persistente do balanço global de petróleo.
“Na nossa leitura, o mercado passou a precificar um estresse relevante no curto prazo, sem, por ora, validar um novo regime estrutural para o petróleo em horizontes mais longos. Seguimos avaliando que, uma vez dissipado o componente mais agudo do choque geopolítico, os fundamentos de médio prazo permanecem relativamente confortáveis, diante da expansão da oferta fora da OPEP e da moderação do crescimento da demanda global”, diz a Vista.
No exterior, boa parte dos bancos estrangeiros revisaram suas projeções para os preços do Brent. O Goldman Sachs espera que o preço médio fique entre US$ 110 em março e abril. O JP Morgan espera uma queda gradual ao longo do ano, saindo de US$ 100/barril no segundo trimestre de 2026 para US$ 90/barril no terceiro trimestre e US$ 80/barril nos meses finais do ano.
O Morgan Stanley, por sua vez, prevê que o Brent se manterá acima dos US$ 80 durante todo o restante de 2026.
Efeito em cascata
O petróleo é um dos grandes vetores de inflação ou desinflação global. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o conflito entre dois grandes produtores da commodity fez o preço disparar. Logo após a eclosão da guerra no Leste Europeu, em fevereiro daquele ano, o Brent deu um salto de quase 20%. O choque fez a gasolina e o diesel no Brasil subirem, com um peso importante para a alta da inflação brasileira naquele ano.
A gasolina é o item de maior peso individual na composição do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Cada 1% de alta no preço nas bombas de combustíveis costuma elevar em 0,5 ponto percentual o índice, lembra a equipe macroeconômica do Inter.
Mas há uma diferença importante: desde a extinção da paridade internacional de preços em 2023, a Petrobras não tem mais a obrigação de repassar as oscilações do petróleo imediatamente. “Nesse momento, a Petrobras tem uma margem para absorver esse choque, pelo menos incialmente, uma vez que o preço de distribuição tem ficado acima do preço importado ao longo desse início de 2026, diferentemente do que vimos em 2022, quando o conflito na Ucrânia iniciou em um momento em que os preços domésticos já estavam defasados em cerca de 10% frente ao internacional”, dizem André Valério e Gustavo Menezes.
O entendimento dos especialistas é de que, embora o aumento do petróleo traga riscos inflacionários via combustíveis, a Petrobras tem margem para absorver o choque no curto prazo e a apreciação do real e a menor sensibilidade recente do IPCA ao repasse cambial indicam que a economia brasileira deve atravessar o episódio atual com impactos inflacionários limitados e temporários.
Um estudo feito pelo Banco Daycoval mostra que o choque no petróleo pode elevar inflação com pressão maior em preços administrados no curto prazo e em preços de serviços no médio prazo. Para o departamento de economia da instituição, mais importante do que o tamanho do choque é qual patamar/trajetória o preço do petróleo vai assumir após o período do conflito.
Pelo modelo de projeções do BC, se o preço do petróleo ficar em US$ 80, as projeções de inflação se elevam de 3,4% para 5,0% em 2026 e de 3,2% para 3,7% no 3° tri de 2027 – os períodos do horizonte relevante monitorados pela autarquia.
“No curto prazo (2026), o aumento dos preços administrados é o principal canal de pressão sobre o IPCA, em especial devido aos efeitos sobre os combustíveis”, destaca o Daycoval. O banco diz, no entanto, que se o petróleo se mantiver em torno de US$ 80 e retornar aos níveis pré-conflito após seis meses do início do choque, os efeitos de médio prazo podem ser até baixistas.
Impacto de curto prazo no mercado
Toda essa volatilidade tem gerado efeitos de magnitudes distintas nos ativos brasileiros. Como mostramos aqui, a curva de juros abriu muito, com os DI futuros voltando a disparar, sobretudo nos vencimentos intermediários. A oscilação atingiu em cheio dos títulos do Tesouro Direto, que voltaram a oferecer as maiores taxas do ano, exigindo uma intervenção bilionária do Tesouro Nacional para garantir a liquidez no mercado de renda fixa.
O receio de que o conflito perdure também fez o mercado repensar as expectativas para a taxa Selic. Antes da guerra, era consenso que o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciaria o ciclo de cortes da taxa Selic na quarta-feira (18) com um ajuste de 0,50 ponto percentual. Com os últimos acontecimentos, o ajuste foi mais moderado, de 0,25 p.p. A duração do ciclo, ou seja, até onde os juros podem cair este ano, dependerá dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio.
“O Boletim Focus voltou a mostrar revisão para cima da inflação. A ala mais pessimista do mercado já trabalha com a possibilidade de a taxa chegar entre 13% e 13,5%, em vez da faixa entre 12% e 12,5%”, diz Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos.
O real também tem papel importante nessa história. Desde que a guerra no Oriente Médio começou, o dólar teve dias de forte alta contra a grande maioria das moedas globais. Mas o movimento tem sido menos dramático contra a moeda brasileira. Como o País é um exportador da commodity, a divisa nacional acaba exposta às oscilações de preço: quando o preço do petróleo sobe 1% na semana, o real tende a se apreciar 0,1% frente ao dólar, calcula o Inter.
Ainda que o petróleo tenha disparado em março, o dólar sobe apenas 1,4% contra o real no mês. No mesmo período, o Ibovespa cai quase 2% – um desempenho negativo, mas resiliente, tendo em vista que o índice estava na máxima histórica antes da eclosão da guerra. “A entrada de fluxo para a bolsa brasileira segue forte. Só neste mês, já supera R$ 5 bilhões”, afirma Boragini.