Desenrola Brasil 2.0 pode aliviar inadimplência e ajudar bancos, mas efeito deve ser desigual, dizem analistas (Foto: Adobe Stock)
O avanço do novo DesenrolaBrasil 2.0 deve trazer algum alívio para a inadimplência das famílias e pode ajudar os bancos a melhorar, ainda que de forma gradual, a qualidade das carteiras de crédito. A nova etapa do programa amplia o alcance para brasileiros com renda de até cinco salários mínimos, cerca de R$ 8.105, e permite renegociar dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026, com descontos que variam de 30% a 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e prazo de até 48 meses para pagamento. Na avaliação de Moody’s Ratings, o impacto tende a ser positivo principalmente para linhas de crédito sem garantia, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal — mas quanto isso afetará os bancos?
“O novo Desenrola Brasil deve ajudar na redução da inadimplência de empréstimos sem garantias e de elevado custo de crédito para pessoas físicas, apoiando uma normalização gradual da qualidade dos ativos no segmento de varejo”, afirma Lucas Viegas, vice-presidente sênior da agência.
Ao mesmo tempo, a Moody’s pondera que os efeitos sobre os resultados financeiros dos bancos não devem ser homogêneos. Segundo Viegas, o benefício será “moderado e desigual”, já que dependerá do número de clientes efetivamente elegíveis e, principalmente, da capacidade dessas renegociações se transformarem em fluxo sustentável de pagamentos ao longo do tempo.
Contexto macro explica o programa
Dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que o endividamento das famíliasatingiu 80,2% em março de 2026, o maior patamar da série histórica iniciada em 2010. Já o Banco Central apontou inadimplência de 6,9% em fevereiro, maior nível em quase uma década, enquanto o comprometimento da renda das famílias com dívidas bancárias chegou a 29,33%.
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, o programa chega em um momento crítico. Segundo ele, o programa tem potencial concreto de aliviar a pressão financeira no curto prazo, sobretudo pelos descontos agressivos e pelas condições facilitadas de pagamento.
Ainda assim, ele alerta que o impacto tende a ser mais forte inicialmente do que no médio prazo “porque ele não altera necessariamente a dinâmica de formação de novas dívidas“, diz.
Na visão do executivo, o efeito positivo para bancos e economia depende também do ambiente de juros. Com a Selic ainda em 14,50% ao ano, o créditocontinuacaro, o que aumenta o risco de reincidência no endividamento.
“Para o mercado, o sinal é positivo porque reduz o risco de inadimplência no sistema e melhora a qualidade das carteiras de crédito, mas a consolidação desse resultado passa obrigatoriamente por educação financeira e pela redução estrutural do custo do dinheiro no Brasil”, acrescenta.
Programa apenas recicla problemas estruturais
Para o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), o Desenrola pode repetir problemas de iniciativas anteriores ao focar na renegociação sem atacar as causas do superendividamento. “Uma política pública construída às pressas, sem debate amplo com a sociedade, em especial de representantes de consumidores, e sem avaliação consistente de experiências anteriores, tende a reproduzir limitações já conhecidas”, afirma Ione Amorim, economista e consultora do instituto.
Segundo ela, o problema do endividamento ganhou novos componentes nos últimos anos, como a ampliação da oferta de crédito, o avanço das apostas esportivas e o custo elevado do dinheiro no País. Enquanto isso, os grandes bancos aceleram a adesão ao programa, buscando reduzir perdas e recuperar clientes inadimplentes.
Bancos que já aderiram ao Desenrola 2.0
O Banco do Brasil (BBAS3) informou que mais de 40 mil clientes já demonstraram interesse em renegociar dívidas dentro do Novo Desenrola. Apenas no primeiro dia de operações, o banco realizou 1.807 renegociações enquadradas no programa, movimentando cerca de R$ 3 milhões. Considerando também clientes fora dos critérios do Desenrola, foram mais de 10 mil acordos adicionais, somando R$ 94,8 milhões.
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O banco afirmou ainda que a procura por renegociações cresceu 87% em relação ao início da semana anterior. A estratégia do BB combina descontos de até 90%, renegociação digital via WhatsApp, aplicativo e internet banking, além de iniciativas de educação financeira para tentar reduzir a reincidência da inadimplência.
O Bradesco (BBDC4) também confirmou adesão ao programa e já abriu pré-cadastro para clientes interessados enquanto aguarda liberações operacionais do Fundo de Garantia de Operações (FGO). Além dos clientes elegíveis ao Desenrola, o banco prepara campanhas próprias para consumidores que estejam fora das regras do governo.
Segundo André Duarte, diretor executivo de Crédito e Recuperação do banco, o objetivo é ampliar o alcance das renegociações. “Ao ampliar o alcance do número de clientes elegíveis para renegociar suas dívidas, buscamos oferecer mais amplitude às alternativas de apoio às pessoas que querem sanar suas contas”, afirmou.
O Nubank (ROXO34) segue estratégia semelhante. A fintech confirmou participação no programa e anunciou uma campanha complementar para clientes fora dos critérios oficiais. Um dos diferenciais será a possibilidade de reativação do cartão de crédito após a regularização da dívida, sujeita a nova análise de crédito.
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“O nosso papel é estar ao lado do cliente em todas as fases da jornada financeira, inclusive quando algo não sai como o planejado”, afirma Franklin Maia, diretor-geral de Recuperação do Nubank. Segundo ele, a tecnologia permite criar ofertas mais aderentes à capacidade de pagamento dos clientes e evitar que a dívida “vire uma bola de neve”.
Já o Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4) liberou renegociações diretamente em seus canais digitais, incluindo aplicativo, WhatsApp e site. O banco também anunciou condições especiais para clientes que não se enquadram nas regras do programa federal.
Para analistas, o Desenrola Brasil 2.0 apresentará efeitos mais duradouro que dependerão de fatores estruturais, como renda, juros e educação financeira, além da capacidade de evitar um novo ciclo de endividamento.