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Educação Financeira

Como a perda de R$ 40 bilhões da Bolsa com investidor estrangeiro afeta a sua vida

Para entender o que está acontecendo com a Bolsa brasileira é preciso olhar para dentro e para fora de casa; veja

Por Janize Colaço

24/06/2024 | 9:40 Atualização: 25/06/2024 | 13:17

A Bolsa de Valores brasileira tem visto em 2024 uma constante fuga de capital, sobretudo estrangeiro. (Foto: adragan em Adobe Stock)
A Bolsa de Valores brasileira tem visto em 2024 uma constante fuga de capital, sobretudo estrangeiro. (Foto: adragan em Adobe Stock)

Depois do otimismo que tomou os investidores em relação ao Ibovespa no final de 2023, a Bolsa de Valores brasileira tem visto uma constante fuga de capital — sobretudo estrangeiro. Somente nesses seis primeiros meses do ano, o capital externo na B3 (B3SA3) está negativo em R$ 40,032 bilhões. Além disso, como mostramos nesta reportagem, o índice brasileiro nem mesmo tem conseguido aproveitar do bom momento que os mercados acionários da América do Sul têm vivido.

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Mas para entender o que está acontecendo com a Bolsa brasileira é preciso olhar para dentro e para fora de casa. Do ponto de vista externo, a perspectiva era de que os juros americanos seriam aliviados com quatro cortes na taxa em 2024, a partir de março. Só que os ânimos foram arrefecendo conforme os dados mostraram a economia dos Estados Unidos ainda pujante, pressionando a inflação. Em sua última decisão de política monetária, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) mostrou que a maioria dos seus dirigentes projetam em um único corte, cujas apostas do mercado são de que isso ocorra em setembro ou mesmo em dezembro.

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Já por aqui, o cenário fiscal continua como uma pedra no sapato para os agentes do mercado. Nos últimos meses, o governo federal tem sido pressionado para reduzir gastos em um momento de dificuldade para aumentar a arrecadação. Isso porque o governo revisou a meta fiscal de 2025 para déficit zero. Antes a previsão era de um superávit de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Com o temor de que o arcabouço fiscal não seja cumprido, o investidor brasileiro busca refúgio na renda fixa — cuja taxa de juros longa dos títulos do Tesouro Nacional atingiram neste mês 6,3%.

Em meio a esse cenário, o último Boletim Focus revisou as projeções econômicas. Sobre a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a estimativa para este ano subiu de 3,9% para 3,96%. O PIB, por sua vez, passou de 2,09% para 2,08%. Enquanto isso, a estimativa para a taxa básica de juros (Selic) subiu de 10,25% para 10,50% em 2024.

Juros americanos x risco Brasil: o que pesa mais contra a Bolsa?

Para Renato Nobile, gestor e analista da Buena Vista Capital, o cenário econômico dos EUA aparece como o principal fator para a debandada dos investidores estrangeiros do Brasil. “Além da questão dos juros americanos, que estando elevados atrai o investidor para renda fixa (Treasuries, os títulos públicos dos EUA), há atratividade também no mercado de renda variável. As empresas americanas, principalmente as de tecnologia e aquelas relacionadas à inteligência artificial (IA), têm apresentado um crescimento nos lucros muito mais acelerado do que em qualquer outra parte do mundo”, aponta.

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Na mesma linha de pensamento, Hemelin Mendonça, especialista em mercado de capitais e sócia da AVG Capital, destaca que a “economia mais saudável” dos nossos vizinhos ianques proporciona uma segurança que muitos não enxergam no Brasil. “Mesmo com uma inflação alta, o cenário político por lá é um pouco menos conturbado, e alguns dados econômicos, como o CPI abaixo do consenso, levaram o S&P 500 e o Nasdaq a novas máximas, e renovando as expectativas de cortes nas taxas de juros nos EUA”, explica.

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Mas mesmo que os investimentos nos EUA estejam mais atrativos e pegando para si o capital que poderia estar aportado em economias emergentes como a brasileira, a deterioração do cenário fiscal interno também tem contribuído para essa dinâmica. Segundo Aline Rosa, sócia da Matriz Capital, pesa contra a renda variável brasileira as incertezas relacionadas a déficits elevados e o crescimento da dívida. “Um exemplo marcante desse fenômeno foi observado durante o governo Dilma Rousseff, entre 2011 e 2016, quando o aumento expressivo dos gastos públicos não foi acompanhado por receitas equivalentes, resultando em déficits fiscais crescentes e um rápido aumento da dívida pública.”

Ainda assim, Rosa frisa que o governo tem demonstrado uma preocupação maior com a sustentabilidade fiscal e uma postura mais cautelosa em relação à política monetária. Mas existem mais fatores que tornam os agentes do mercado desconfiados. “O uso de bancos públicos para expansão de crédito e a percepção de instabilidade econômica afastam os investidores estrangeiros que estão em busca de segurança e previsibilidade”, diz.

A culpa é de quem?

Com um cenário externo mais adverso do que o observado em agosto do ano passado, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) deu início ao ciclo de corte na taxa Selic, em unanimidade o Banco Central manteve inalterada a taxa básica de juros na reunião da última quarta-feira (19). Essa era uma decisão aguardada, já que em maio houve um atrito entre os membros do comitê, com os indicados pelo atual governo apontando para uma queda de 0,5 ponto porcentual (p.p). Isso criou um novo mal estar no mercado e o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não poupou críticas ao comitê — e, em especial, ao comandante do Banco Central, Roberto Campos Neto.

As críticas duras à condução do BC feitas pelo governo ajudaram a alimentar a sensação de instabilidade econômica e o dólar atingiu a sua maior cotação no governo Lula 3 nos últimos dias.

Em relatório, Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, e o time da casa observam que a divisa americana estava próxima de R$ 4,85 quando a Selic começou a ser cortada. “Com o aumento das incertezas domésticas, o câmbio hoje está em torno de R$ 5,30. Acreditamos que a moeda brasileira está subvalorizada e provavelmente deverá se apreciar até o final do ano. Mas reconhecemos que o risco aumentou. Por enquanto, esperamos que a taxa de juros seja mantida em 10,5% até o final de 2025”, dizem.

  • Leia também: Para onde vão o Ibovespa e o dólar daqui para a frente?

Para João Ricardo Coutinho, economista e diretor da RJ+Asset, a decisão do BC de manter a taxa Selic elevada se deve também à preocupação com a condução fiscal brasileira, para além da economia externa. Ele lembra que a disparada do dólar se torna outro fator a pressionar a inflação local, o que tende a fazer com que os juros permaneçam em patamares elevados por aqui. “O governo precisa entender que é preciso haver um balanceamento entre as suas expectativas e as do mercado. Do jeito que está agora, investir no Brasil não gera a confiança de rentabilidade.”

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No entanto, na visão de Sérgio Praça, pesquisador e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma parcela da culpa desse “desencontro” entre Lula e Campos Neto se deve justamente pela conduta do banqueiro central. “O problema se iniciou quando Roberto Campos Neto, em 2020, foi a um evento privado com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Além disso, recentemente ele participou de um jantar com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) – que agora está na oposição”, diz.

Segundo Praça, essas são sinalizações que podem ser entendidas como política partidária de Campos Neto. Mas do ponto de vista institucional, como dirigente de uma autarquia independente do governo, esse tipo de posicionamento não é bem-visto. “Quem provocou esse clima foi ele ao não cumprir com esse dever. Agora, essa briga serve de álibi para o PT e o Lula colocarem a culpa nele por qualquer notícia ruim na economia e tomar o crédito pelas boas”, afirma.

Como a fuga de capital do B3 afeta os investidores (e quem não investe)?

Além do último Copom, que manteve a Selic inalterada, o governo tem se mostrado mais aberto ao diálogo com o mercado. Nas últimas semanas, os ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e do Planejamento, Simone Tebet, sinalizaram que o presidente Lula está aberto a discutir sobre gastos, além de pedir ajuda com a aprovação da reforma tributária para o Congresso.

Mas enquanto o cenário se mantém como está agora, a economia brasileira como um todo é impactada, não apenas o mercado financeiro. Isso contribui para a contínua saída de capital estrangeiro e o consequente enfraquecimento da moeda nacional, o que intensifica a volatilidade cambial e alimenta a inflação.

Aline Rosa, da Matriz Capital, acredita que o Banco Central pode não apenas manter a Selic a 10,5%, como até elevar a taxa, o que, por sua vez, pode desacelerar o crescimento econômico. “Para os investidores, esse ambiente de instabilidade representa tanto riscos quanto oportunidades em setores específicos. Enquanto isso, para aqueles que não investem, os efeitos se refletem em uma inflação mais elevada e em um crescimento econômico mais contido, impactando o emprego e a renda”, diz.

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