Cemig (CMIG4) teve trimestre pressionado por comercialização de energia, mercado spot e volumes mais fracos, segundo analistas. (Foto: Adobe Stock)
Os resultados da Cemig (CMIG4) no primeiro trimestre de 2026 (1T26) vieram abaixo das expectativas e deixaram mais cautelosa a visão de analistas sobre a companhia no curto prazo. Embora a elétrica tenha apresentado crescimento operacional em algumas linhas, bancos e corretoras destacaram pressões relevantes na comercialização de energia, exposição ao mercado à vista (spot) e volumes mais fracos em diferentes unidades de negócio.
O Banco Safra classificou a ação como neutra e cravou um preço-alvo de R$ 12,50. A XP Investimentos seguiu o mesmo caminho de neutralidade, mas optou por um preço-alvo de R$ 14,60, o que representa patamar 25,11% acima do último fechamento (7). Já o Citi, acompanhando os colegas, reforçou o ticker como neutro e definiu preço-alvo de R$ 12,00, com potencial de alta de 2,8% ante quinta-feira.
“O conjunto dos resultados refletiu lucros abaixo do potencial”, destacou o Safra.
O banco espera uma reação negativa do mercado financeiro. Porém, pelo menos nesta manhã, o comportamento do papel tomou um rumo diferente na Bolsa de Valores: subia 1,20% por volta das 11h30, a R$ 11,81.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado da Cemig (excluindo VNR, equivalência patrimonial e itens não recorrentes) somou R$ 1,765 bilhão no trimestre, 10% abaixo da estimativa da instituição e 6% inferior ao consenso de mercado. O lucro líquido ficou em R$ 979 milhões, queda de 6% em relação ao mesmo período do ano passado, em linha com o consenso.
Desempenho fraco em todos os aspectos
Na avaliação do Safra, o desempenho foi “mais fraco em todos os aspectos”. As vendas enfraqueceram nas divisões de geração e comercialização de energia, volumes abaixo do esperado em distribuição e gás, além de pressão no ajuste de garantia física (GSF, índice do setor elétrico que calcula a relação entre a energia hidrelétrica gerada e a garantia física das usinas) e exposição negativa ao mercado à vista. A inadimplência acima do normal também entrou na lista de fatores que pressionaram o trimestre.
O Safra também chamou atenção para a mudança na liderança da companhia, após o conselho anunciar Alexandre Ramos, ex-presidente da CCEE, como novo CEO da empresa no lugar de Reynaldo Passanezi.
A XP, também decepcionada, classificou os números como “fracos, mas dentro do esperado”, destacando que o principal fator de pressão veio da estratégia de comercialização de energia. Na divisão de Geração & Transmissão, a margem bruta ficou 4% abaixo do esperado, enquanto o Ebitda ajustado somou R$ 541 milhões, também 3% inferior às estimativas da casa.
Já a distribuidora apresentou leitura mais positiva. Apesar dos volumes mais fracos em função de temperaturas mais amenas, a margem bruta veio 5% acima do projetado, o que, segundo a XP, indicou uma operação resiliente. Ainda assim, provisões maiores acabaram compensando parte desse efeito, levando o Ebitda ajustado da unidade a R$ 945 milhões, 2% acima do esperado.
Payout pela metade até 2028
Mesmo reconhecendo ganhos de eficiência e maior foco na distribuidora, a XP manteve postura cautelosa. A corretora ressaltou que o payout(porcentual do lucro distribuído aos acionistas) limitado a 50% até 2028 restringe o potencial de retorno no curto e médio prazo, salvo eventos extraordinários sem efeito caixa que elevem o lucro contábil.
Além disso, afirmou enxergar pouco potencial de valorização nas discussões envolvendo privatização ou federalização no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag, incluído pelo governo de Minas Gerais com o intuito de abater a dívida de R$ 170 bilhões com a União e amortizar até 20% do saldo devedor – proposta encontra resistência na Assembleia Legislativa)
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O Citi ressaltou que a principal surpresa positiva veio da Cemig D. O Ebitda ajustado da distribuidora alcançou R$ 945 milhões, avanço de 27% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente pelo reajuste tarifário e pela redução de despesas pós-emprego.
Por outro lado, o segmento de Geração, Transmissão e Holding decepcionou. O Ebitda da área ficou em R$ 627 milhões, bem abaixo dos R$ 877 milhões projetados pelo banco. O principal impacto veio da comercialização de energia, cujo Ebitda ficou negativo em R$ 161 milhões. O Citi atribuiu o desempenho a maiores custos de compra de energia, preços à vista mais elevados e impactos relacionados à não entrega em contratos de energia renovável.
A Gasmig também ficou abaixo das expectativas da instituição, com Ebitda de R$ 193 milhões, pressionado pela queda de volumes e pela continuidade da migração de clientes para o mercado livre. Além da pressão operacional, o Citi chamou atenção para a piora na alavancagem da companhia. A relação dívida líquida/Ebitda subiu para 2,45 vezes no trimestre, ante 2,3 vezes no fim de 2025.
*Com colaboração dos repórteres Vinícius Novais e Luísa Laval, do Broadcast