Moody’s alerta para piora do crédito em emergentes e vê disciplina financeira como diferencial em 2026
Agência afirma que empresas com liquidez robusta, menor alavancagem e governança disciplinada devem resistir melhor a choques globais, enquanto companhias fragilizadas enfrentam maior pressão sobre ratings
Moody’s avalia que empresas emergentes mais alavancadas devem enfrentar maior pressão diante de juros altos, tensões geopolíticas e volatilidade no petróleo. (Foto: Adobe Stock)
A deterioração do ambiente global de crédito para empresas e mercado emergentes deve ampliar a diferença entre companhias mais preparadas financeiramente e aquelas mais vulneráveis a choques externos, segundo a Moody’s Ratings. Para a agência, tensões geopolíticas, volatilidade no petróleo e condições financeiras mais restritivas, liquidez robusta e disciplina financeira tendem a ser fatores decisivos para preservar a qualidade de crédito das empresas.
A Moody’s afirma que as companhias de mercados emergentes, como o Brasil, entram em 2026 após dois anos de melhora dos perfis de crédito, impulsionados por desalavancagem e refinanciamentos favorecidos por condições macroeconômicas mais benignas. Ainda assim, o quadro começou a mudar antes mesmo da escalada do conflito no Oriente Médio no fim de fevereiro.
Nos quatro primeiros meses de 2026, os rebaixamentos de rating já superavam as elevações, enquanto as perspectivas negativas passaram a prevalecer sobre as positivas, indicando maior probabilidade de deterioração adicional nos próximos 12 a 18 meses.
A casa destaca que a combinação entre inflação pressionada, margens corporativas comprimidas, menor apetite ao risco e fragilidade das cadeias globais de abastecimento tende a ampliar vulnerabilidades, especialmente entre empresas mais alavancadas ou dependentes de refinanciamento. Com isso, fatores internos das companhias ganharam peso crescente na diferenciação da qualidade de crédito.
“A política financeira, governança e gestão de liquidez foram os principais vetores das mudanças na qualidade do perfil de crédito”, afirma o relatório.
De acordo com a agência, esses fatores responderam por cerca de metade das elevações de rating e quase dois terços dos rebaixamentos entre janeiro de 2025 e abril de 2026.
Governança preserva flexibilidade financeira
Na prática, isso inclui postergação de investimentos discricionários, limitação na distribuição de dividendos, gestão ativa de passivos e manutenção de colchões de liquidez robustos.
Por exemplo, no setor siderúrgico brasileiro, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSNA3) sofreu deterioração do perfil de crédito em meio à elevada alavancagem e menor flexibilidade financeira, em um ambiente de enfraquecimento da demanda e concorrência de importados chineses. Já a Gerdau (GGBR4) manteve métricas mais estáveis graças a uma política financeira mais conservadora e menor alavancagem.
O setor petroquímico também não fica de fora. A Moody’s aponta que a Braskem (BRKM5) enfrentou forte enfraquecimento do perfil de crédito devido à elevada alavancagem, queima de caixa e incertezas relacionadas à política financeira dos acionistas. Em contrapartida, empresas como a Sasol Limited e a PTT Global Chemical Public Company Limited conseguiram preservar maior resiliência ao adotar medidas de recomposição de balanço, suspensão de distribuições aos acionistas e reforço de liquidez.
No Brasil, a agência também destaca o caso da Raízen (RAIZ4) como exemplo de como decisões de gestão podem ampliar pressões financeiras em momentos adversos. Segundo a Moody’s, o plano agressivo de investimentos financiados por dívida coincidiu com juros domésticos elevados e queda nos preços do petróleo e do açúcar, deteriorando margens e pressionando liquidez. A companhia teve seus ratings rebaixados quatro vezes em apenas quatro meses.
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Apesar do cenário mais desafiador, a agência ressalta que alguns setores específicos ainda podem ser beneficiados pela alta das commoditiesenergéticas e agrícolas. Entre os potenciais favorecidos estão produtores de petróleo e gás na América Latina, Ásia Central e África, além de exportadores do agronegóciobrasileiro e argentino.
Risco soberano deteriora 90% das emergentes
Com relação ao peso do risco soberano sobre o crédito corporativo, a Moody’s lembra que apenas cerca de 10% das empresas avaliadas em mercados emergentes possuem ratings superiores aos de seus respectivos países, já que governos e empresas compartilham vulnerabilidades macroeconômicas semelhantes.
Segundo a agência, deteriorações nas condições econômicas de um país podem afetar o acesso das empresas ao financiamento por meio de alterações regulatórias, tributárias ou restrições de mercado. Políticas governamentais podem limitar até mesmo os benefícios gerados por cenários externos favoráveis, especialmente em setores estratégicos como petróleo, mineração e energia.
Na avaliação de Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury, parte do alívio recente nos mercados decorre da percepção de redução das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Segundo ele, investidores buscaram proteção no dólar durante março diante do temor de prolongamento do conflito e eventual bloqueio do Estreito de Ormuz.
“O dólar praticamente retornou ao nível em que estava antes da guerra, enquanto os índices acionários dos EUA dispararam novamente para novas máximas históricas”, afirma Ryan. Para o estrategista, o mercado passou a incorporar a visão de que “o pior do conflito já ficou para trás”, após o cessar-fogo firmado em abril e os avanços nas negociações diplomáticas.
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Ainda assim, embora o alívio recente tenha reduzido parte da aversão ao risco global, a Moody’s alerta que os efeitos secundários do conflito seguem relevantes para mercados emergentes. A agência avalia que empresas com balanços mais frágeis, elevada dependência de refinanciamento e menor capacidade de absorver choques devem enfrentar um ambiente significativamente mais pressionado nos próximos meses, enquanto companhias com liquidez forte e disciplina financeira tendem a ampliar sua diferenciação dentro do mercado de crédito.