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Mercado

Apesar de carta aberta, mercado não mudou visão sobre lockdown

Texto assinado por mais de 500 importantes economistas e empresários cobra medidas efetivas para a pandemia, como vacinação célere e fechamentos mais rígidos

Por Isaac de Oliveira

23/03/2021 | 11:59 Atualização: 24/03/2021 | 10:58

Avenida Paulista, em São Paulo (Foto: Felipe Rau/Estadão)
Avenida Paulista, em São Paulo (Foto: Felipe Rau/Estadão)

Se o lockdown gerou receio nas bolsas globais em 2020, derrubando índices sempre que surgia como uma possibilidade ou quando era confirmado em algum lugar, neste domingo (21), ele foi explicitamente defendido em uma carta aberta, assinada por mais de 500 “pesos-pesados” ligados ao mercado financeiro brasileiro. São economistas, banqueiros e empresários, que cobram celeridade no enfrentamento da pandemia de covid-19.

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O motivo é a dimensão que a crise tomou. Com os números de mortes e de casos renovando recordes não vistos nem nos meses mais graves da crise, iniciada em março do ano passado, o receio e o alerta de especialistas da saúde é que a situação ainda possa se agravar nas próximas semanas.

“Não é razoável esperar a recuperação da atividade econômica em uma epidemia descontrolada”, diz a carta, que tem entre os signatários os ex-ministros da Fazenda Pedro Malan e Marcílio Marques Moreira, os ex-presidentes do Banco Central Armínio Fraga e Gustavo Loyola, os co-presidentes do conselho do Itaú Unibanco, Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles, e o presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira.

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Além de defender a vacinação em massa como condição indispensável para a recuperação econômica e redução dos óbitos, o texto menciona que a adoção de um lockdown nacional ou regional deveria ser avaliado. “É urgente que os diferentes níveis de governo estejam preparados para implementar um lockdown emergencial, definindo critérios para a sua adoção em termos de escopo, abrangência das atividades cobertas, cronograma de implementação e duração”.

A carta reflete a visão do mercado?

A defesa na carta de que o lockdown venha a ser adotado, se necessário, não reflete ainda por parte dos investidores uma mudança de visão sobre a medida mais extrema, mesmo com a chancela de nomes ligados a companhias de grande importância e participação no mercado de capitais brasileiro, dizem especialistas ouvidos pelo E-Investidor.

“O empresariado não é homogêneo. Tem setores que foram muito prejudicados, e setores que foram bastante beneficiados”, analisa Roy Martelanc, coordenador do MBA Banking da Fundação Instituto de Administração (FIA). “Essa alternância de posição reflete a disputa de forças de setores de um lado e de outro o tempo todo.”

Devido às restrições de circulação de pessoas, empresas dos setores aéreo, de shopping e turismo, por exemplo, foram diretamente impactadas. Prova disso é o acúmulo de perdas nos preços de ações ligadas a esses ramos e negociadas em bolsa. No sentido oposto, empresas ligadas ao comércio eletrônico ou do setor de saúde conseguiram surfar altas na crise.

“Esses setores estão muito sensíveis às notícias de avanço das vacinas, mas também da possibilidade de um plano de restrição mais drástico”, explica Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos. “Mas não é que o mercado seja contra. Se intensificar o lockdown, a geração de receita desses setores vai ser mais ainda impactada”, completa Bertotti.

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Ou seja, o lockdown indica que as empresas permanecerão fechadas e isso faz com que os investidores reduzam suas expectativas quanto ao futuro desses negócios, refletindo diretamente no preço das ações, seja para cima ou para baixo.

Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, também reforça que o sentimento do mercado em relação à pandemia não é homogêneo. Para ele, se houvesse uma unicidade, os principais preços, como do risco-país, dos juros longos, do dólar e da própria bolsa, teriam sofrido muito mais volatilidade nas últimas semanas.

“O mercado efetivamente trabalha com uma curva epidemiológica que vai atingir o máximo nas próximas duas semanas e depois vai declinar mais rapidamente”, diz Silveira. “Então, o mercado continua sereno em relação ao comportamento da pandemia neste período que se aproxima”, completa.

Isso acontece porque o mercado não é um lugar propriamente de consenso, já que é feito por investidores com objetivos e expectativas diferentes. O que se mostra pelo otimismo, de um lado, versus o temor, de outro – representado, neste caso, pelo grupo que assina a carta aberta.

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“No momento, o Brasil passa por escassez de doses de vacina, com recorrentes atrasos no calendário de entregas e revisões para baixo na previsão de disponibilidade de doses a cada mês. No ritmo atual, levaríamos mais de 3 anos para vacinar toda a população”, diz a carta.

Para o professor de Finanças do Insper, Ricardo Rocha, a iniciativa foi um recado geral e legítimo, uma vez que o setor financeiro é um dos maiores pagadores de impostos, que emprega muito e financia boa parte do PIB brasileiro. “Foi um direcionamento, porque o governo, aparentemente, está sem ação”, diz Rocha.

O professor do Insper não se surpreenderia com uma postura menos aversa ao lockdown por parte de grandes investidores. “Acredito que o conjunto de investidores, principalmente aqueles internacionais que têm interesses no Brasil, que não são os três milhões de pessoas físicas que estão na bolsa, teria uma leitura positiva se o governo federal resolver tratar um pouco mais cuidadosamente dessa questão sanitária, incluindo um eventual afastamento social maior”, avalia Rocha.

Caso um movimento desse tipo acontecesse, o economista-chefe da Nova Futura explica que o resultado se mostrará nos preços. “O mercado ainda não foi comovido pelas impressões ou certezas que os signatários da carta têm ao dizer que uma solução mais forte é necessária. Se o mercado for aderir, de fato, a essa visão, significa que vamos ver mudanças nos preços, particularmente do dólar, do juro longo e do Ibovespa”, conclui Silveira.

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