Felipe Miranda deixa a Empiricus e prepara novos projetos no mercado financeiro (Foto: Empiricus/Arte E-Investidor)
A Empiricus deixou de ter a ‘cara’ de Felipe Miranda em 2026. Com o anúncio da sua despedida em janeiro, motivada por razões pessoais, a maior casa de research do País, que faz parte do conglomerado do BTG Pactual (BPAC11) desde 2021, ganhará novos rumos, agora sob o comando do outro fundador, Rodolfo Amstalden. Oficialmente, Miranda permanece na empresa até agosto próximo, quando encerra as cláusulas de non-compete (não concorrência) firmada no acordo.
Com os dias contados na Empiricus, o executivo já avalia possibilidades de projetos para sua nova fase profissional. “Me afastar do mercado é uma hipótese que não está sobre a mesa”, disse Miranda, em entrevista exclusiva ao E-Investidor.
Por enquanto, não há nada concreto. As ideias estão em fase inicial e devem ganhar corpo a partir do segundo semestre deste ano, com a saída definitiva do BTG. Mas o executivo já flerta com algumas frentes de atuação.
Uma delas é a criação de uma gestora de investimentos focada em small caps, empresas de menor valor de mercado em relação às demais companhias listadas na Bolsa. Segundo Miranda, a tese está ancorada no ciclo de queda dos juros, apesar das incertezas em torno dos impactos da guerra do Oriente Médio no percurso da política monetária do País e no desconto ainda relevante das ações.
Essas empresas ficaram parcialmente de fora do rali na Bolsa de Valores por serem mais sensíveis à economia doméstica e menos atrativas para o investidor estrangeiro. Enquanto o Ibovespa avançou 39,9% nos últimos 12 meses, o índice de small caps subiu 15,3% no mesmo período, diferença de 24 pontos porcentuais. A estruturação dos produtos também estaria sujeita a condições que viabilizassem um horizonte de retorno no longo prazo. A ideia, segundo Miranda, seria reunir ativos de qualidade em um fundo fechado com prazo de cinco a oito anos, por exemplo.
“É uma classe que está largada e temos a possibilidade do Brasil viver um ciclo muito positivo nesta direção”, afirma o executivo. “Teríamos uma janela de oportunidade muito clara”, ressalta.
A asset também teria fundos voltados para deep tech, setor focado em empresas de tecnologias avançadas, como inteligência artificial (IA), biotecnologia, robótica e infraestrutura para blockchain (sistema de registro descentralizado de transações em uma rede de criptoativos, que funciona como uma espécie de livro-razão imutável). Esses ativos, inclusive, integram o portfólio pessoal do executivo.
Neste caso, a visão de Miranda é de que a estratégia de investimento busca capturar um movimento estrutural econômico com o avanço das inovações tecnológicas ligadas à IA e a proximidade do mundo cripto com o sistema financeiro tradicional.
“O brasileiro tem pouco acesso a deep tech do mundo e conseguiria trazer isso para o mercado local”, diz o executivo.
Mercado ruim para gestoras independentes
Os planos, por outro lado, caminham na contramão do mercado. Nos últimos anos, boa parte das gestoras independentes e com menor capilaridade tem tido dificuldades para enfrentar as incertezas macroeconômicas e mudanças tributárias em produtos de investimentos, como fundos exclusivos. Como mostramos nesta reportagem, para se manter rentável e atrair investidores, uma asset precisaria de R$ 1 bilhão de patrimônio sob gestão, mas, desde 2024, atingir esse patamar é uma tarefa árdua para muitas das independentes.
Ainda assim, Miranda enxerga espaço para esses negócios, sobretudo no Brasil. A convicção se apoia em sua própria trajetória à frente da Empiricus. Em 16 anos e meio, a casa de análise conseguiu crescer em meio a sucessivos períodos de estresse do mercado, como o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a pandemia de covid-19, além de enfrentar o descrédito do mercado sobre a sua capacidade de monetização.
Felipe Miranda, acompanhado dos sócios Caio Mesquita e Rodolfo Amstalden, conseguiu atrair cerca de 450 mil assinantes, com atuação forte nas redes sociais, e ajudou a consolidar a indústria de research no Brasil. Com esse legado, o executivo não se intimida com os desafios de lançar outro veículo independente. E diferente dos primeiros anos de Empiricus, agora ele conta uma vantagem competitiva: a capacidade de identificar caminhos para atravessar períodos de incertezas.
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“Há duas alternativas: tocar a gestora com o seu próprio capital ou abrir para terceiros, mas com uma equipe modesta e de baixo custo”, ressalta. “Mas enquanto houver grama para ser cortada, há oportunidades (de negócios)”, disse o executivo fazendo referência ao potencial de valorização dos ativos brasileiros.
Consultoria de investimentos
A outra alternativa em estudo é a criação de uma consultoria de investimentos voltada para o investidor pessoa física, pautada no perfil de risco, transparência e análise independente. A proposta seria oferecer uma alternativa aos agentes autônomos ligados às plataformas de distribuição, sobretudo para investidores prejudicados pelos episódios de conflitos de interesses, como o caso Master e os COEs da Ambipar. Nestas duas situações, tanto a XP quanto o BTG foram os principais canais de distribuição desses produtos ao varejo.
“Há uma minoria de agentes autônomos que não trabalha pelo interesse do investidor. Com uma taxa fixa, a recomendação chega mais adequada ao cliente”, ressalta. “A ideia é desenvolver um modelo próprio, acompanhando a evolução das discussões do mercado e das melhores práticas do setor”, acrescenta.
A leitura de Miranda acompanha uma tendência já observada no mercado. Como mostramos nesta reportagem, dados da SmartBrain estimam que 20% das assessorias já tenham migrado para a consultoria ou para o modelo híbrido. A possibilidade, na avaliação dele, também dialoga com a credibilidade construída no mercado financeiro.
“Empresas que têm mais crescido são justamente aquelas que estão associadas a figuras com credibilidade e forte presença nas redes sociais”, avalia. No Instagram, Miranda já atraiu meio milhão de seguidores, com as suas análises de investimentos, política e macroeconomia. No Linkedin, a sua atuação também segue relevante, com quase 17 mil seguidores.
Atento aos movimentos de mercado
Enquanto os planos não ganham corpo, Miranda acompanha os movimentos recentes do mercado e se mantém otimista, apesar das tensões geopolíticas e do ano eleitoral, com a Bolsa brasileira. Para ele, a agenda econômica e política imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fragilizaram a percepção do papel do dólar como porto seguro e alterou parte do fluxo de capital. A Bolsa brasileira se favoreceu desse movimento, como principal destino dos mercados emergentes.
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O País também permanece em uma posição favorável com o avanço da inteligência artificial. Segundo Miranda, à medida que as inovações ganham espaço no mercado, haverá uma escassez de recursos naturais para desenvolver a infraestrutura necessária dessa indústria, especialmente no setor de energia.
“O Brasil é uma das principais potências hídricas do mundo e tem 23% das reservas minerais críticos do mundo, atrás somente da China”, destaca.
Do lado doméstico, o ciclo de queda de juros favorece os ativos de Bolsa, especialmente as ações de small caps. Os papéis desse grupo, na avaliação dele, têm potencial para subir até 60% apenas para retornar à média histórica dos seus múltiplos. E no caso do Ibovespa, o índice tem potencial de ficar próximo dos 230 mil pontos.
“Se esse cenário se somar uma perspectiva de um governo mais fiscalista em 2027, com consequente maior espaço para redução de juros, poderíamos ver o Ibovespa subindo 30% a 40% frente aos níveis atuais até o final do ano”, diz. “Se houver uma reeleição, será mais do mesmo, com um momento favorável para ativos emergentes e com queda moderada de juros”, acrescenta.