A Auren Energia (AURE3) encerrou o primeiro trimestre de 2026 com prejuízo líquido de R$ 601,6 milhões. Pela primeira vez, o ganho com a modulação superou o custo do curtailment. (Imagem: Adobe Stock)
A Auren Energia (AURE3) registrou prejuízo de R$ 601,6 milhões no primeiro trimestre, revertendo o lucro de um ano antes, em um resultado pressionado principalmente por perdas contábeis em contratos de energia e menor geração no período. Um ano antes, o lucro líquido foi de R$ 54 milhões.
Apesar do resultado negativo, a companhia destacou um ganho inédito com a gestão do portfólio, que ajudou a compensar parte das perdas.
A receita líquida da companhia cresceu 4,4% nos três primeiros meses do ano, em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 3,07 bilhões, enquanto o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) consolidado teve uma queda de 78,2% na mesma comparação, passando de R$ 1,377 bilhão para R$ 300,1 milhões. O resultado foi afetado principalmente pela revisão do valor dos contratos de energia com base nos preços atuais de mercado (sem efeito imediato no caixa), com reconhecimento prospectivo, salientou a empresa.
O Ebitda ajustado ficou em R$ 925,9 milhões no primeiro trimestre, montante 23,2% menor que o reportado um ano antes. A margem Ebitda ajustada recuou 10,7 pontos porcentuais no período, para 30,1%.
A Auren atribuiu a queda à base de comparação, tendo em vista que no ano passado a geradora registrou ganhos da ordem de R$ 60 milhões com a diferença de preços de energia entre regiões Sudeste/Centro-Oeste e Nordeste, o que não se repetiu nos três primeiros meses de 2026. Adicionalmente, a companhia foi penalizada por uma menor disponibilidade de geração tanto eólica, quanto solar e hidrelétrica.
A geração total da Auren, incluindo recursos próprios e participações, caiu 16,6% de janeiro a março, em relação a igual etapa do ano passado, para 3,33 gigawatts médios. No recorte por fontes, para os ativos controlados pela companhia, a geração hidrelétrica diminuiu 20%, refletindo os menores despachos realizados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), frente à preocupação com a recuperação dos reservatórios diante de um cenário de chuvas abaixo da média.
A produção eólica recuou 16%, com ventos também abaixo da média, enquanto a solar foi 8,9% menor, também refletindo menor recurso solar, além das restrições de geração (curtailment).
Cortes na geração e ganho inesperado ajudam a explicar o trimestre
Os cortes na geração de energia — conhecidos no setor como curtailment — aumentaram no trimestre e atingiram tanto as usinas eólicas quanto as solares da Auren. Na prática, isso acontece quando as usinas produzem energia, mas não conseguem entregar ao sistema, seja por restrições operacionais ou excesso de oferta.
Publicidade
Esse efeito gerou um impacto financeiro de R$ 86,2 milhões no período.
Por outro lado, a companhia teve um ganho relevante com a chamada “modulação” do portfólio — basicamente, a capacidade de gerar energia em momentos mais favoráveis de preço, especialmente com hidrelétricas.
Esse movimento rendeu R$ 97,2 milhões e, pela primeira vez, superou as perdas com os cortes de geração, resultando em um saldo positivo.
Os cortes de geração nas usinas da Auren chegaram a 13,4% na fonte eólica e 16,3% na fonte solar, em linha com a média observada no Sistema Interligado Nacional (SIN) no primeiro trimestre deste ano, de 14,9% e 16,2%, respectivamente, mas acima do verificado há um ano, de 8,3% e 12,9%.
“Pela primeira vez, a gente teve um benefício do portfólio da modulação superando o impacto do curtailment, com saldo positivo de R$ 11 milhões”, disse o presidente da Auren, Fabio Zanfelice.
Para ele, a tendência é de que os ganhos de modulação sigam maiores que os custos com curtailment no futuro, tendo em vista a perspectiva de que os preços horários seguirão oscilando entre mínimas no meio do dia – quando eólicas e solares são cortadas e as geradoras são obrigadas a comprar energia para reposição de seus contratos – e valores elevados no fim da tarde, quando as hidrelétricas são acionadas a contribuir no fornecimento de potência para atender a alta demanda.
Publicidade
“Mas vai depender do trimestre e da configuração do sistema daqui pra frente”, disse, citando que o aumento dos cortes durante a chamada ‘safra dos ventos’ e potenciais períodos de escassez hídrica podem alterar esse cenário.
Dívida da Auren
A queda no Ebitda ajustado impulsionou a alavancagem da companhia, que subiu para 5,2 vezes dívida líquida/Ebitda ajustado, patamar 0,4 vezes acima do reportado no fechamento de 2025, a despeito da redução de R$ 135,3 milhões no período.
O vice-presidente de Finanças e Relações com Investidores da companhia, Mateus Ferreira, lembrou que no momento do anúncio da aquisição da AES Brasil, a companhia antecipou que teria um primeiro momento de desalavancagem, saindo de 5,7 vezes para 4,8 vezes, seguido de um período de ‘platô’, para voltar a desalavancar a partir de 2027.
“No primeiro trimestre a gente entrou nesse platô, e agora está com uma alavancagem muito parecida com aquela do quarto trimestre”, disse, reforçando que o indicador deve seguir ao redor de 5 vezes durante todo 2026.
A partir do ano que vem, com o fim dos desembolsos no projeto Cajuína 3 e o início da geração de caixa desse ativo, a companhia deve voltar a observar a desalavancagem.
As obras do projeto de 112 megawatts de potência, localizado no Rio Grande do Norte, avançaram para 68% de execução física, informou a empresa. O início do comissionamento está previsto ainda para o primeiro semestre de 2026, com entrada em operação comercial total estimada para dezembro.