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Investimentos

Entre a euforia e a queda: na última janela de IPOs, 80% das empresas deram prejuízo ao investidor

Estudo da Seneca Evercore mostra que apenas 22% das empresas que se listaram na B3 desde 2016 tiveram desempenho positivo; só 5% delas ganhou do Ibovespa no período

Por Luíza Lanza
Editado por Geovana Pagel

07/05/2026 | 5:30 Atualização: 06/05/2026 | 18:00

B3 não registra um IPO desde setembro de 2021. (Foto: Adobe Stock)
B3 não registra um IPO desde setembro de 2021. (Foto: Adobe Stock)

A Compass, subsidiária da holding Cosan (CSAN3), fará a primeira oferta inicial de ações (IPO) da Bolsa de Valores brasileira em mais de quatro anos. A precificação da companhia ocorre nesta quinta-feira (7), na faixa entre R$ 28 e R$ 35, e a PASS3 deve estrear na B3 na segunda-feira (11).

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  • IPO da Compass vai reabrir janela na B3? Entenda por que retomada ainda pode demorar

A operação põe fim a um jejum de IPOs na B3 desde setembro de 2021, após uma safra recorde que entre 2020 e 2021 levou 61 companhias à abertura de capital no País. À época, as inúmeras ofertas foram sinônimo de euforia no mercado. Anos depois, a grande maioria significou prejuízo para os investidores.

Um estudo da Seneca Evercore mostra isso na prática. A assessoria levantou todas as operações realizadas na B3 desde 2016, excluindo aquelas empresas que já deixaram a Bolsa para mapear o retorno das ações até maio de 2026.

Leia também: No adeus à Bolsa, OPAs podem gerar perdas de até 90% para o investidor

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A última década teve 92 ofertas. Dessas, 72 companhias seguem listadas até hoje. Nesse grupo, apenas 16 tiveram um desempenho positivo em relação ao preço fixado no IPO – isso representa cerca de 22% do todo. Ou seja, 80% das empresas operam atualmente abaixo do valor a que estrearam na Bolsa.

Quando os desempenhos são comparados a outros investimentos, a conta piora. Apenas quatro empresas, ou seja 5,6% do grupo de 72, tiveram uma performance superior a do Ibovespa no período: Cury (CURY3), Orizon (ORVR3), Caixa Seguridade (CXSE3) e Neoenergia (NEOE3).

O levantamento da Seneca mostra ainda que o primeiro ano pós-listagem costuma ser difícil para as companhias. Considerando as 92 companhias que fizeram o IPO desde 2016, o desempenho mediano das ações 12 meses após a operação foi de -18,3%.

Investidores mais seletivos

As operações mais recentes seguem este mesmo caminho. Enquanto a janela de ofertas esteve fechada por aqui, algumas empresas brasileiras se listaram no exterior. O Picpay (PICS) fez seu IPO em Nova York em janeiro deste ano, precificado a US$ 19 por ações. Menos de quatro meses depois, vale cerca de US$ 13, acumulando uma queda de 32%.

O Agibank (AGBK) estreou logo depois, no início de fevereiro. A precificação ocorreu logo na esteira da queda dos ativos do Picpay, o que fez pressão adicional sobre os preços da companhia, que saiu a US$ 12 o papel após o banco reduzir a meta de captação pela metade. Hoje, a AGBK é negociada na casa de US$ 6,9, uma queda de 41% em relação ao IPO.

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Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, destaca que o investidor ficou sentido após a última safra, o que pode levar a maior seletividade nas novas operações. O básico precisa ser feito: entender qual é a companhia, o setor em que atua, seu diferencial. E, claro, o preço a que está sendo avaliada.

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Mais do que nunca, será preciso entender também o que está levando aquela companhia à listagem e qual será a destinação dos recursos. Se a oferta for primária, o dinheiro captado vai para o caixa da empresa; se for secundária, para os acionistas controladores.

No caso da Compass, a oferta é secundária e o recurso captado não vai entrar na companhia como caixa para investimentos, mas sim na Cosan a quem a companhia pertence e que vem enfrentando problemas de endividamento. “Isso não é necessariamente ruim, mas sem dúvidas muda a leitura. O investidor precisa entender por que o sócio está vendendo e qual será a nova estrutura acionária depois da oferta”, explica.

É preciso olhar as duas coisas. Boragini dá o exemplo do IPO da Compass: a empresa tem perfil resiliente, faz parte de um setor defensivo e é tida como a “joia da coroa” do grupo Cosan. O ponto de atenção, nesse caso, fica para o segundo ponto. “É uma operação que nasce muito ligada à desalavancagem da holding e à venda da participação dos acionistas atuais”, diz.

Cuidados para não repetir os mesmos erros

Os especialistas concordam que é cedo para dizer que a primeira oferta na B3 em mais de quatro anos marca o início de uma nova janela de operações. O caso da Compass parece mais ligado a questões micro do grupo do que um sinal de que o macro melhorou, ainda que o momento atual tenha fundamentos ligeiramente melhores do que anos anteriores.

  • “Vemos abertura de janela de IPOs no Brasil neste primeiro semestre”, diz presidente do Citi

Para que mais empresas queiram se listar na B3 vai ser preciso que os juros caiam de forma mais ampla. Quando isso acontecer, como nos ciclos anteriores, investidores precisam ter cuidado com a euforia que geralmente antecede essas operações.

“Sempre orientamos ter bastante cuidado nos IPOs, mesmo em empresas grandes ou conhecidas. Geralmente falta informação nessas ofertas”, diz Fabiano Vaz, sócio e analista de ações da Nord Investimentos.

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Para se listar na B3, a companhia precisa ter três anos de balanços auditados por uma empresa independente e registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O prospecto da oferta, disponível no site da Bolsa, também inclui as informações chave da companhia, destinação dos recursos e fatores de risco relacionados à oferta, entre outras informações. No entanto, não é um documento simples para a pessoa física ler e compreender sozinha.

O investidor precisa garantir que sabe o que é e por que está comprando aquele ativo; e se não está fazendo isso apenas porque é uma oportunidade que voltou a existir, destaca Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos.

“O ciclo anterior de IPO ensinou que prospecto bonito e roadshow empolgante não pagam a conta. Muitas empresas chegaram à bolsa com histórias sedutoras e sem geração de caixa, apostando num cenário de juro baixo que durou menos do que o esperado, frustrando expectativas”, afirma.

A dica prática, segundo ele, é analisar no detalhe o fluxo de caixa da empresa estreante, mais do que a projeção de crescimento; entender quem está vendendo as ações e por que, observando de o preço da oferta deixa margem real de lucro ao investidor. “Ou se o upside já foi capturado pelos controladores antes da abertura”, explica.

Nessas operações, o preço também importa. Um caminho para entender se o valuation é “justo” é comparar os números da empresa com pares do mesmo setor – o que, de novo, não é uma tarefa simples para o investidor pessoa física.

“Quem promove um IPO tem o intuito de arrecadar o maior valor possível para a empresa. É sempre um ponto de alerta para esse investidor, principalmente os inexperientes”, pontua Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos.

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