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Investimentos

Dividendos acima da Selic: 16 ações superam os 14,75%, mas nem todas inspiram confiança; veja simulações de renda passiva

Lista inclui papéis de companhias de setores cíclicos, o que adiciona riscos à carteira de renda passiva

Retrato de busto sob fundo azul escuro.
Por Katherine Rivas
Editado por Wladimir D'Andrade

25/03/2026 | 5:30 Atualização: 24/03/2026 | 17:53

Simulação mostra o patrimônio necessário e o tempo para atingir a renda com aportes mensais de R$ 500 e R$ 1 mil em ações que pagam dividendos acima da Selic. (Imagem: Gorodenkoff em Adobe Stock)
Simulação mostra o patrimônio necessário e o tempo para atingir a renda com aportes mensais de R$ 500 e R$ 1 mil em ações que pagam dividendos acima da Selic. (Imagem: Gorodenkoff em Adobe Stock)

O corte de 0,25 ponto porcentual que levou a taxa de juros da economia brasileira a 14,75% ao ano ainda impõe um cenário desafiador para o investidor de ações que pagam dividendos buscar retorno superior à Selic por meio dos proventos. No entanto, apesar da tentação dos prêmios oferecidos na renda fixa, pelo menos 16 papéis conseguem ter rentabilidade em dividend yield (retorno de dividendos) igual ou superior a este patamar.

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O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) promoveu na última quarta-feira (18) o primeiro corte da Selic em quase dois anos – desde maio de 2024 – em meio a incertezas com a guerra no Oriente Médio e alta nos preços do petróleo que pressionam a inflação e podem atrapalhar o ciclo de queda das taxas que acabou de começar. O boletim Focus do Banco Central (BC) divulgado ontem já trouxe uma mostra do efeito provocado por estes fatores: a projeção do mercado financeiro para a Selic ao fim de 2026 passou de 12,25% na pesquisa anterior para 12,50% nessa última.

A identificação das 16 ações que pagam dividendos acima da Selic nos últimos 12 meses vem de estudo de Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria. Empresas cíclicas ainda marcam presença na lista das que apresentaram dividend yield de 14,75% ou mais, levando a questionamentos sobre a perenidade destes proventos no longo prazo. O levantamento considerou ações das carteiras de Ibovespa, Small Caps e Índice de Dividendos (IDIV) e retornos em proventos entregues até o dia 17 de março.

No estudo, também é possível encontrar o dividend yield projetado para os próximos 12 meses, sob critérios quantitativos, que incluem a premissa de que as empresas precisam manter o mesmo lucro ou obter expansão dele, além de continuar com a mesma política de distribuição de proventos. Vale lembrar que fundamentos e eventos a serem encarados por estas empresas podem alterar esta projeção. Rivero ainda alerta que muitas empresas anteciparam proventos no quarto trimestre de 2025 (4T25) por conta da tributação, o que pode distorcer um pouco este retorno esperado.

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Ao observar os dividendos projetados para o próximo ano, o número de ações diminui para apenas nove papéis capazes de bater a taxa básica de juros. A lista inclui ainda a mediana de dividend yield destas ações dos últimos três anos, uma métrica que permite ter uma visão mais realista de como estas companhias remuneram os seus acionistas, amenizando o efeito de distribuições não recorrentes.

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Como ter um salário mínimo com dividendos destas ações?

Um levantamento exclusivo de Fábio Sobreira, sócio e analista-chefe da Rocha Opções de Investimentos, para o E-Investidor mostra quanto seria necessário investir nestas ações, que pagam acima da Selic de 14,75%, para conseguir ter uma renda mensal equivalente a um salário mínimo (de R$ 1.621) com dividendos. Para evitar distorções e trazer uma visão mais de longo prazo, Sobreira utilizou no cálculo a mediana de dividend yield de três anos destes papéis.

No caso da Vulcabras (VULC3), que apresenta o maior retorno na mediana de dividend yield, de 25,66%, seria necessário um patrimônio investido na ação de R$ 75.807 para garantir um salário mínimo extra todo mês com proventos. O patrimônio necessário a ser investido nestas ações de dividendos vai dos R$ 75 mil na Vulcabras até R$ 1,151 milhão.

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O estudo traz ainda o caminho das pedras para quem não tem nenhum valor investido e precisa começar de zero a construir a “bola de neve” dos dividendos. Neste caso, investindo R$ 500 todo mês nas ações da Vulcabras e reinvestindo todos os dividendos recebidos, seria possível conquistar a renda extra de um salário mínimo em seis anos.

Investir valores maiores podem encurtar o prazo para conquistar a liberdade financeira, com aportes de R$ 1 mil todo mês e reinvestindo na mesma ação VULC3 todos os dividendos recebidos, o investidor alcança sua meta de renda passiva em 3 anos e 11 meses. Veja abaixo as simulações.

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Como ter um salário considerado como mínimo ideal?

Com a inflação ainda elevada, um salário mínimo de R$ 1.621 por mês é considerado insuficiente para um brasileiro bancar suas necessidades básicas. Um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revela que o salário mínimo deveria ser de R$ 7.164,94. Com base nestes valores, Sobreira também fez os cálculos de quanto investir para garantir esse montante em dividendos mensais.

Na Vulcabras, por exemplo, seria necessário um patrimônio de R$ 335.071 para obter uma renda mensal de R$ 7.164,94. Investindo R$ 500 todo mês e reinvestindo os dividendos, seria possível conquistar esta renda em 11 anos e 6 meses. Já com aportes de R$ 1 mil, o investidor conseguiria chegar a este objetivo em 8 anos e 9 meses.

Quais papéis não se sustentam?

Cubos com símbolos de porcentagem e termo "selic" impressos, representando ações que pagam dividendos acima da taxa básica de juros da economia.
Estudo da Elos Ayta Consultoria lista empresas cíclicas entre as que apresentaram dividend yield de 14,75% ou mais, o que gera risco para o investidor de renda passiva, que normalmente procura empresas com geração de caixa regular.(Imagem: Adobe Stock)

Especialistas consultados pelo E-Investidor destacam que nem todos os dividendos entregues pelas ações da lista são recorrentes. Muitos foram frutos de eventos atípicos e podem não se sustentar no longo prazo.

Gabriel Duarte, analista da Ticker Research, cita JSL (JSLG3) e Movida (MOVI3), companhias que precisam de capital intensivo para investir nas suas operações, o que deve deixar dividendos no segundo plano. Segundo ele, embora a queda da Selic amenize o endividamento destas empresas, dando uma folga no caixa, boa parte dos proventos pagos em 2025 foram fruto de antecipações. “Não devemos ver estes nomes pagando dividendos relevantes nos próximos anos”, destaca.

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Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, tem uma visão semelhante e aponta que a holding JSL ainda encara dívidas altas e está em processo de desalavancagem, o que pode impactar a estrutura de capital. Já para a Movida, ele enxerga muita dificuldade de a locadora de automóveis manter o dividend yield de dois dígitos apresentado nos últimos 12 meses. “Varejo, como PetzCobasi, também enxergo zero possibilidade de apresentar dividendos acima da Selic”, pontua Queiroz.

  • Confira também: Por que evitar empresas cíclicas e alavancadas em sua carteira
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Dúvidas também surgem quando analistas falam em Unipar (UNIP6). Para Wendell Finotti, CEO da plataforma Meu Dividendo, a companhia está presente em um setor cíclico, dependente de preços de commodities como PVC e soda caustica. “Com a alta do petróleo, diante da guerra, pode não ser um ano positivo para Unipar”, destaca.

Ele cita ainda a Bradespar (BRAP4), holding que investe na Vale (VALE3), e depende dos preços do minério de ferro. Atualmente no patamar de US$ 105,54, Finotti acredita que diante uma possível desaceleração do crescimento econômico pode ser que a commodity não se sustente nesse patamar. Duarte destaca que o dividendo da Bradespar pode até ser recorrente, mas é altamente volátil. “Se o minério de ferro cair, o dividendo tomba junto”, diz.

  • Vale com desconto de 36%: o que o preço de holding de Bradespar esconde sobre dividendos e risco

Quais ainda têm chance?

Já entre os papéis que sustentam dividendos perenes no médio prazo, Duarte cita a Cemig (CMIG4), empresa híbrida que atua em geração, transmissão e distribuição de energia e que ele define como um reloginho em dividendos. “A Cemig tem receita previsível, corrigida pela inflação e uma gestão focada em eficiência e desinvestimento de ativos não estratégicos”, destaca.

No entanto, Duarte faz a ressalva de que empresas de geração, segmento em que a Cemig tem exposição relevante, enfrentam um cenário adverso que pode impactar os resultados e o lucro em 2026, além de reduzir os proventos.

Os especialistas também citam o pacote de construtoras, Direcional (DIRR3), Cury (CURY3) e Cyrela (CYRE3), que estão apresentando forte geração de caixa e devem se beneficiar com a queda dos juros, principalmente as que atuam no segmento de baixa renda e são impulsionadas pelo programa habitacional do goveno federal Minha Casa, Minha Vida, como é o caso de Direcional e Cury.

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“Essas empresas devem continuar pagando dividendos de dois dígitos, por não ter muitos projetos em andamento, estarem com endividamento controlado, o que vai fazer com que devolvam mais dinheiro aos acionistas”, avalia Queiroz.

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Duarte acrescenta que o setor de construção voltado a baixa renda vive um momento de “padrão ouro”, com aumento de subsídio do governo e teto das unidades. “O dividend yield projetado de 15,91% para Direcional parece consistente com o ritmo de lançamento de imóveis e vendas atuais”, destaca o analista da Ticker.

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