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Mercado

Fluxo estrangeiro na Bolsa desacelera com guerra, mas não vai parar: ‘Mudança que veio para ficar’, diz UBS BB

Veja entrevista com Marcelo Okura, codiretor de mercados globais para a América Latina do banco

Por Marília Almeida

23/03/2026 | 6:00 Atualização: 20/03/2026 | 17:43

Marcelo Okura, codiretor de mercados globais para a América Latina do UBS BB: "cautelosamente otimista" de que o dinheiro do gringos seguirá entrando no país (Foto: UBS BB/ Divulgação)
Marcelo Okura, codiretor de mercados globais para a América Latina do UBS BB: "cautelosamente otimista" de que o dinheiro do gringos seguirá entrando no país (Foto: UBS BB/ Divulgação)

O conflito entre Estados Unidos e Israel e o Irã pode causar uma aversão a risco entre investidores estrangeiros, que poderia parar o forte fluxo na Bolsa brasileira. Embora ainda não seja isso o que está acontecendo, já é possível observar uma desaceleração: enquanto em janeiro houve a entrada de R$ 26 bilhões, em fevereiro foram R$ 16 bilhões e, em março até agora, R$ 4,6 bilhões.

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Para Marcelo Okura, codiretor de mercados globais para a América Latina do UBS BB, o Brasil está muito bem posicionado para continuar a receber aportes de investidores estrangeiros por causa de características como ativos baratos, liquidez, governança e expectativa de juros mais baixos, que tende a valorizar a Bolsa de Valores. “O País é menos afetado em questões geopolíticas. Sigo cautelosamente otimista com o fluxo estrangeiro“, afirma.

No acumulado de 2026, o fluxo de capital externo está positivo em R$ 46,3 bilhões, algo que surpreendeu todo o mercado, diz Okura. Em 2025 inteiro foi registrada entrada de R$ 25 bilhões no mercado financeiro brasileiro. A expectativa de Okura para o final de 2026 é que o volume represente mais do que o dobro do ano passado.

Veja abaixo a entrevista completa do executivo para o E-Investidor.

E-Investidor – A guerra pode interromper o fluxo de capital estrangeiro para o país?

Marcelo Okura – Chegamos a março com fluxo meio de lado por conta da incerteza dos efeitos da guerra no Oriente Médio em toda a economia global, inclusive a brasileira. Os investidores analisam como o choque do petróleo tem impacto sobre tudo. Os juros caíram menos no Brasil por conta dessa falta de visibilidade e há uma desaceleração do movimento, mas não acredito que ele será interrompido a não ser que a guerra se prolongue por muito tempo.

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É um cenário que obviamente deixa os investidores globais mais cautelosos, mas é mais um slowdown do que uma reversão de pensamento. Por agora ele para de comprar até ter cenário mais claro em relação à guerra.

Temos de lembrar que somos um país exportador de petróleo, o que impacta a Petrobras (PETR3; PETR4) de forma positiva: ela poderá vender seu produto mais caro e distribuir mais dividendos. A inflação, que pode trazer problemas para a economia, está controlada no momento.

  • Confira: Petróleo acima de US$ 80 deve turbinar caixa da Petrobras, mas dividendos ainda são dúvida

Por fim, estamos afastados do conflito geopolítico, inclusive geograficamente. Outros emergentes acabam tendo muito mais problemas com a guerra, como a China (o Irã era um exportador de petróleo para o país). Se houver um cessar fogo, a tendência é o mercado e o fluxo subirem rapidamente.

O fluxo estrangeiro ainda está mais forte neste ano do que em 2025. Esse movimento é tático ou estrutural, na visão do UBS BB?

O que motiva este fluxo? Há um movimento de rotação em curso: os principais fundos estrangeiros e investidores estão diminuindo sua posição nos Estados Unidos para realocar em emergentes. E o Brasil foi beneficiado por essa reorganização dos investimentos dos gringos.

O primeiro motivo para isso são as políticas malucas e intervenções sucessivas que criam muita instabilidade na economia norte-americana e enfraquecem o dólar. Neste cenário, o Brasil fica mais atrativo, pois os preços de seus ativos são considerados baratos em relação a bolsas de outras geografias.

  • Leia também: O que está acontecendo com os fundos de crédito privado nos EUA?
  • A crise do crédito privado de US$ 265 bilhões: como a maior febre de investimentos de Wall Street se transformou em pânico

O segundo motivo é que o Brasil é um país muito líquido dentro da América Latina. Se um investidor deseja se posicionar no continente, ele prefere o Brasil porque o mercado financeiro de outros lugares é muito pequeno. Na Argentina, por exemplo, o mercado é minúsculo.

Já do ponto de vista de governança o Brasil também é visto como um país funcional. Tivemos dois ex-presidentes que foram presos e isso ajuda a mostrar que as instituições funcionam até mesmo com ex-mandatários. É bem verdade que tivemos casos como o do Banco Master, mas mostramos que não há uma ruptura das instituições. Não existe o risco de impedir que o dinheiro estrangeiro saia do País, controle que pode ocorrer em outros países.

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Por fim, o último fator diz respeito à expectativa de juros decrescentes, que torna os ativos mais atrativos.

  • Como investir em renda fixa com guerra no Irã e queda da Selic: CDI, prefixado ou IPCA+

Por todas essas razões, mesmo com a eclosão do conflito, não acreditamos que esse dinheiro seja oportunista. É um fluxo que só deve se reverter se os EUA voltarem a ser encarados como um porto seguro, o que não parece que irá acontecer enquanto Donald Trump continuar na presidência dos EUA.

O estrangeiro já responde por mais de 60% do fluxo para a Bolsa no Brasil. Em 2021, era pouco mais de 40%. O gringo não pensa que irá comprar agora e daqui dois meses, se situação piorar, venderá tudo. Há realmente uma mudança na percepção de investimento que veio para ficar. Mas depende que não haja ruptura em nossas instituições. Sob condições normais, esse dinheiro fica.

Quem são esses investidores?

A grande maioria, cerca de 80%, são fundos passivos, o que os torna muito ligados ao momento macroeconômico. Se a alta do petróleo interromper a queda de juros, esse tipo de fundo pode reduzir sua posição. Mas o que irá mantê-lo por aqui será a rotação de investimentos para fora dos EUA. Também fazem parte do movimento alguns fundos long only (comprados) e até quantitativos, mas mais no final do ano passado do que em 2026. Ou seja, não são o principal motivo para o movimento neste ano.

Como os fundos gringos são muito grandes, qualquer movimento mínimo que faz tem um grande impacto na nossa Bolsa.

  • Saiba mais: Quem é o investidor estrangeiro que banca os recentes ralis do Ibovespa

Quais setores da Bolsa brasileira hoje concentram a maior parte do interesse estrangeiro?

O maior volume vai para ações da Petrobras e da Vale (VALE3), seguida por Prio (PRIO3), Itaú (ITUB3; ITUB4) e Axia (AXIA3).

A eleição presidencial pode impactar o movimento de alguma forma?

O mercado vê essa eleição de uma forma binária: um candidato fará o ajuste fiscal e outro não. Mas os estrangeiros são mais pragmáticos, eles acreditam que se o governo se reeleger saberá como está e como será. É um olhar mais suave, que considera que será o quarto mandato de um governo que já sabem como funciona. Não é uma surpresa.

Porém, se for eleito um governo com compromisso fiscal mais responsável, pode ser que os preços dos ativos mudem de patamar. Se acha que estão baratos, vão lá e compram. Ou seja, se houver algum movimento, é do nível atual para cima.

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